Só queriam ser felizes

By 22 Novembro, 2017Reflexão

O João só queria ser feliz. E a mulher não o permitia. Estava sempre a dar-lhe cabo da cabeça, não o deixava fazer o que ele realmente queria. Sentia-se aprisionado. Nem podia partilhar os seus pensamentos, pois era imediatamente julgado. Acabava quase sempre por guardar coisas só para si. Mentia nas mais pequenas coisas só para evitar sentir-se inferiorizado pela mulher. E sentia-se cada vez pior. Achava que já não a amava. Como podia amar quem o privava de liberdade e da felicidade? Já lhe tinha passado tudo pela cabeça: divorciar-se, arranjar outra, desaparecer. Só que tinha muito medo de fazer o que quer que fosse. Afinal de contas, a mulher dizia-lhe constantemente que ele não era capaz de fazer nada de jeito.

 

A Andreia só queria ser feliz. E o marido não a deixava. Nunca fazia nada direito e estava sempre a esconder-lhe coisas. Tinha-lhe tirado a alegria de viver porque lhe deixava nas mãos a responsabilidade de tudo na relação. Tudo, até as emoções dele. Muitas vezes fazia cara de cachorrinho triste e abandonado. Isso não lhe dava pena, dava-lhe era fúria. Desabafava muitas vezes em cima dele para ver se o acordava. Ele ficava calado e parecia que nunca conseguia realmente chegar até ele. Sabia que ele a achava uma chata, mas o chato era ele sempre de mau humor. Sentia-se cada vez pior e achava que não faltava muito para se divorciar. Gostava dele, mas sentia-lhe mais raiva do que amor. Como é possível sentir amor por quem nos tira assim a alegria de viver? Apetecia-lhe começar tudo de novo com alguém que a fizesse realmente feliz.

 

O João e a Andreia eram casados um com o outro. E, como tantos de nós, cometiam os mesmos erros. Erros que, na realidade, os tornavam extremamente parecidos!

 

  1. Não observavam atentamente o que se estava a passar. Agiam com base nas especulações que faziam sobre o que estava a acontecer, não sobre o que realmente estava a acontecer. Tinham dificuldade em entrar no lugar um do outro, embora tivessem imensas opiniões sobre o outro e o seu comportamento.

 

  1. Não tinha intenções claras para o seu relacionamento. Falavam de coisas vagas como alegria, amor, felicidade e liberdade, só que não sabiam exatamente o que é que essas coisas queriam dizer e como as podiam experienciar na prática.

 

  1. Não eram flexíveis. Estavam tão fechados no seu mundo interno de significados, crenças, regras e especulações, que continuavam a fazer repetidamente as mesmas coisas, apesar de já lhes conhecerem os resultados indesejados.

 

  1. Depositavam expectativas no outro e no seu comportamento, fazendo os seus estados emocionais depender da capacidade do outro cumprir as suas expectativas – mesmo sem, na maior parte dos casos, as comunicarem e discutirem com o outro.

 

  1. Comunicavam pouco, guardando só para si desejos e anseios, medos e receios. Não surpreende que não se sentissem livres e felizes – fechavam-se e faziam de conta que quem tinha a chave para os soltar era o outro.

 

Às vezes, os casais beneficiam de terapia. Ou do acompanhamento de um coach. Ou até de um mediador. Na maior parte das vezes, porém, necessitam é de sair do transe que diz que a felicidade depende do outro ou da relação. Não depende. A felicidade é um estado interno. Depende daquilo em que pensamos. Os pensamentos são nossos, não são de mais ninguém. Dependem das nossas crenças, valores, regras, experiências, memórias. É tudo nosso, portanto. Quando voltamos a atenção para dentro, observamos o mecanismo em ação. Penso que o outro deveria ter feito algo e que não o ter feito significa que não me ama. E depois sinto-me triste. Quem criou a tristeza? O outro ou eu, com os meus pensamentos? Quando exponho o mecanismo, descubro a liberdade. A liberdade de poder ser feliz. Agora!

 

O João e a Andreia decidiram ser consequentes em relação ao seu desejo de felicidade. Passaram a evitar os 5 erros descritos acima e implementaram um sistema simples:

 

  1. Observar o que está a acontecer e manifestar interesse genuíno pelo comportamento do outro. Em vez de especular, perguntar. Em vez de avaliar, reconhecer.

 

  1. Definir intenções claras. Agarrar num bloco de papel e escrever, separadamente e depois em conjunto, o que querem da relação. Chegar a acordos, em amor e sem jogos.

 

  1. Mudar pequenas coisas para materializar as intenções definidas, revendo habitualmente o que está a acontecer. Em diversão, sem julgamento.

 

  1. Abandonar a cena das expectativas sobre o outro. Falar sobre intenções, definir metas e objetivos em conjunto e mudar aquilo que for necessário mudar no seu próprio comportamento.

 

  1. Comunicar muito. Abrir as portas e as janelas da alma. Ter a coragem de partilhar desejos e anseios, de verbalizar fantasias, de estar emocionalmente nu. Ter a coragem de partilhar medos e receios, de verbalizar pesadelos, de se despir das defesas, dos muros, dos castelos.

 

Lidaram com os “isto não é assim tão fácil”, “até posso fazer a minha parte mas e o outro”, “e se não funciona” e todas as habituais estratégias mentais para continuar a jogar o paradoxalmente confortável jogo da infelicidade. Entenderam que esses jogos só os iriam prender ao sitio onde estavam e do qual diziam querer sair.

 

O João e Andreia foram espertos: concentraram-se na única parte do relacionamento que cada um pode afetar diretamente – o seu próprio comportamento, os seus próprios sentimentos, os seus próprios pensamentos.

 

O João e a Andreia descobriram que, antes desta mudança, não eram realmente casados um com o outro. Eram pessoas em transe, a viver a terrível hipnose da busca da felicidade. O dia em que, olhos nos olhos, se viram apenas como são, foi o dia em que – finalmente – deram o nó.

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