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Quando não nos apercebemos dos sinais de desgaste de uma relação

By 26 Abril, 2019Reflexão

“Não estava nada à espera”! As palavras ecoaram pela sala, onde estávamos apenas os dois, em cadeiras separadas por uma mesa pequena. Ele baixou a cabeça e manteve o silêncio por uns segundos. Endireitou as costas, encheu o peito e levantou o queixo. Anunciou então que: “ela devia-me ter dito alguma coisa, não é assim que se fazem as coisas, entrar por ali adentro e dizer, de repente que o casamento estava acabado e que já não dava mais e que nem acreditava que eu não tinha percebido que as coisas estavam naquele estado”.

 

Tantas vezes ouvi esta descrição, um misto de espanto e incompreensão. Muitas vezes dirigido para ela (“não é assim que se fazem as coisas”), outras vezes dirigido para o próprio (“como é que eu não me apercebi antes”). Custa a acreditar, claro, que os sinais de desgaste no relacionamento não estivessem lá antes. Será que estavam e não foram observados? Será possível não repararmos no que está a acontecer com aquilo que dizemos ser o mais importante nas nossas vidas?

Nos relacionamentos utilizamos a nossa capacidade empática para especular sobre o que está a acontecer no mundo do outro.

O que estará a pensar? E a sentir? O que quer? O que não quer? Podemos fazer isto retirando conclusões do que observamos. E podemos estimular, através de perguntas, a que essa informação se torne o mais explícita possível. Dessa forma, talvez consigamos evitar o “não estava nada à espera”.

Curiosamente, esta conversa é mais comum – na minha experiência – vinda de homens do que de mulheres. São eles quem mais vezes se queixam de não ter antecipado o desenrolar do relacionamento, o terem sido apanhados desprevenidos, o não terem entendido que o descontentamento era assim tão grande do outro lado. Já elas (perdoa-me as mega generalizações, ok?) são mais frequentemente vítimas do processo inverso, vendo sinais onde eles não existem. De onde virá esta diferença? Da biologia? Aparentemente, não. Da educação em função do género? Mais provável.

 

Educamos as meninas para serem mais atenciosas e sensíveis – logo estimulamos o treino para o reconhecimento das emoções do outro, para a adaptação aos desejos e vontades do outro, para a satisfação das necessidades do outro. Afinal de contas, aquilo que queremos que a menina venha a desenvolver como futura mãe.

Educamos os meninos para serem mais decididos e autoritários – logo estimulamos o treino para o reconhecimento e satisfação das suas próprias necessidades, para a competição e a conquista, para a obtenção de recursos e reconhecimento. Afinal de contas, aquilo que queremos que o menino venha a assegurar como futuro pai.

 

Percebes como este modelo de educação gera depois desafios ao nível dos relacionamentos homem-mulher? (Mais uma vez, lembra-te que estou a explorar mega generalizações com fins didáticos, ok?) É que no momento em que a parte do relacionamento mais especializada em dar suporte ao outro e satisfazer as necessidades do outro começa a questionar o status quo e a explorar o seu próprio desenvolvimento pessoal… o sistema colapsa. E nesse momento, aquele que estava menos preparado para observar e sentir empaticamente, lida com a surpresa e a confusão: “não estava nada à espera”.

Que possamos todos fugir aos paradigmas limitadores, prestar mais atenção e confrontarmo-nos com aquilo que temos à nossa frente: pessoas com desejos e medos, anseios e receios. Tornemos isso a nossa maior urgência no relacionamento: descobrir o outro enquanto nos descobrimos a nós mesmos. E assim, garantidamente, não lidaremos com a surpresa e o choque. Em vez disso lidaremos com o gradual crescimento mútuo!

Ah, e já agora, se também sentes estes desafios na tua relação ouve o próximo espisódio do Podcast Inspiração para uma Vida Mágica. Estou certo que vai ser mesmo muito útil. 🙂

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