“Isto é horrível”

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  • 11 Agosto, 2016

A fila era imensa, centenas de pessoas avançavam vagarosamente ao longo do espaço reservado a quem queria passar o controlo de acesso à zona de embarque do aeroporto de Copenhaga. Ao meu lado, um homem com sotaque norte-americano, desabafou com a sua companheira de viagem: “esta deve ser a minha pior experiência de aeroporto de sempre, isto é horrível”. Seguiu-se um longo suspiro que em pouco aliviou a óbvia tensão muscular do homem. Lembrei-me imediatamente de outras situações em que também eu tinha acedido a pensamentos daquele género: “isto é péssimo, isto está errado, isto é terrível”. Hoje em dia raramente entro nesses ciclos mentais, graças – em parte – a uma pequena técnica que aprendi numa sessão de cinema. Vou partilhá-la contigo. Talvez te ajude a transformar situações “péssimas” em maravilhosas experiências!

 

Há uns bons anos, estava a assistir, no cinema, a um filme passado durante a Segunda Guerra Mundial. A cena, no Pacífico, mostrava um soldado ferido com gravidade, a contemplar a fotografia da sua família, enquanto se esvaia lentamente em sangue. Senti-me fisicamente apertar, conforme o meu inconsciente lidava com a situação na primeira pessoa. Por uns instantes, era eu quem contemplava a fotografia da minha família. Foi nesse momento que me ocorreu que, se algum dia estivesse numa situação semelhante, teria grande prazer e felicidade em trocar essa mesma situação por uma outra onde lidava com uma fila de trânsito, com alguém a atacar-me por causa do meu trabalho, com os meus filhos a lutarem por causa de um jogo, com a minha mulher a mostrar aborrecimento com algo que fiz ou outro qualquer acontecimento mundano. Curiosamente, na vez seguinte em que me deparei com uma situação em que o meu discurso interno iniciou um “isto é mesmo mau”, apareceu a nova rotina de “comparado com a situação do filme do outro dia, isto é o paraíso”! O meu sistema tinha incorporado uma magnífica estratégia de reenquadramento por comparação: isto é mau comparado com uma situação limite?

 

Nem sempre recorro a esta estratégia. Hoje em dia, na maior parte das vezes, o discurso do “isto é mau” nem sequer começa! Em alguns momentos específicos, porém, acedo àquela imagem, daquele filme e tudo muda instantaneamente. Tal como mudaria se, naquela fila em Copenhaga, o passageiro norte-americano tivesse acedido à mesma rotina de reenquadramento. Nesse caso, o seu suspiro teria sido acompanhado de noção de quão maravilhosa pode ser uma fila num aeroporto!

7 Comments

  • Sara Simões diz:

    É mesmo Pedro!!!

    Curioso… Hoje em alguns momentos nos quais antes eu entrava em conflito interno ou em que tinha acesso a estados emocionais negativos verifico que tenho essa postura que descreves, já nem sequer penso ou acedo a estados emocionais negativos… E é fantástico verificar a forma leve e solta com que encaro os desafios e alinho o meu eu com o que realmente interessa.
    Neste teu retrato concreto, ocorreu-me imediatamente ao longo da sua leitura.. “olha que fantástico! provavelmente o avião em que irei fazer a minha viagem estará muito mais seguro agora.”
    É fantástico esta cena de ser um “chactitioner” com mente em modo mindfulness!!!

    Grata

  • Silvia diz:

    Muito bom!
    Exige, sem dúvida, muito controle sobre a macaca chamada “mente”…!!
    Isto de ser humano tem que se lhe diga…
    Boas férias. Abraço.

  • Hugo Varela diz:

    Tecnica da redifinição, uma das mais poderosas ferramentas . Top !

  • Maria Jacinto diz:

    Muito bom , obrigado. Sem duvida um excelente recurso…

  • Maria reis diz:

    Acho k nao.nos devemos deixar levar por pensamentos k nao ajudam o facto de nalgumas cenas do nosso dia a dia as coisas nao.correrem como nos da jeito e compreendermos k.temos k.desemvolver o nosso grau de paciencia 🙂
    Sempre muito oportuno 🙂

  • Patrícia Costa diz:

    Obrigada pela partilha Pedro! 🙂
    Sem dúvida que é uma boa técnica. Por norma, vou conseguindo gerir as situações, ainda hoje chego ao aeroporto pelas 6h30 para ir até à Madeira..informam que o voo é adiado para amanhã, sorri e disse se é por questões de segurança tudo bem! Vou para casa e relaxo:) pensei menos um dia na Madeira então os outros 4 vão ter de ser a aproveitar muito!! Não fiquei incomodada como a maioria das pessoas…mesmo estando tudo pago.

  • Lisete Ferreira diz:

    Olá Pedro,
    Gostei muito e agradeço a partilha. Utilizo algumas vezes essa técnica, mas partilhada pelo Pedro parece ter mais força! 🙂 Já agora também partilho algo que pode ajudar, que é, se estou a passar um momento difícil porque estou doente, estou a aprender a conduzir ou aprender outra coisa qualquer, penso sempre, daqui a uma semana já estarei boa, ou daqui a 1 mês jáestarei mais à vontade nisto e quando foi da condução pensava, daqui a 1 ano já andarei de carro à vontade.
    Espero que ajude. Bom trabalho. Sou uma grande admiradora do V/ trabalho, da Dharma5 e do do Pedro. Parabéns.

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