Chegaste sem nada e sem nada vais partir!

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  • 21 Setembro, 2015

Chegaste sem nada. Partirás sem nada. Entre um momento e outro podes alimentar a ilusão de que tens alguma coisa. Se te lembrares que a posse é temporária e ilusória, tudo bem. Caso contrário, será fonte de medo, tristeza, desilusão e mais uma série de experiências emocionais das quais, tipicamente, dirás que não gostas. Ler este texto, portanto, pode fazer uma diferença enorme na tua vida! Vamos? Vamos!

Numa fase específica do seu crescimento, a criança “entende” a noção de posso: é meu, é teu, é nosso! De quem são estes olhos tão lindos? De quem é este brinquedo? Onde está o teu pai?

É uma aprendizagem altamente intuitiva, é feita de forma relativamente rápida e passa a fazer parte integrante do mapa mundo da criança: ela tem as suas coisas, as suas atividades, as suas responsabilidades, os seus direitos, as suas relações, os seus comportamentos, as suas emoções. Naturalmente, a criança acha-se definida por essas coisas todas – a não ser que a ajudem a fazer a pergunta maior (“mas, afinal, quem sou eu?”)

Conforme cresce, estas noções intensificam-se e tudo com o que a criança sonha é com as posses futuras: os conhecimentos que posso ter, as relações que posso ter, os bens materiais que posso ter, as experiências que posso ter!

E agora, que chegou à idade adulta? Eventualmente, está completamente dominada pela ideia de obter a posse daquilo que não tem e de defender a posse do que tem!

Sofre por não ter dinheiro, por não ter uma boa casa, por não ter “nada” para vestir, por não ter determinados conhecimentos, por não ter confiança ou coragem, por não ter amigos, por não ter ideias, por não ter férias em locais exóticos, por não ter paz e sossego!

Sofre com a ideia de perder um familiar ou namorado, de perder o dinheiro que tem, de perder o emprego, de perder a casa, de perder a paz e a tranquilidade, de perder a memória, de perder a fama ou o sucesso, de perder a identidade!

Percebes o mecanismo? Sofre-se pelo que não se tem e gostaria de ter e sofre-se pelo que se tem e se gostaria de não perder. E tudo assente num extraordinário equívoco!

É que nenhuma – NENHUMA – dessas coisas ou pessoas ou experiências pode, na realidade, ser tida ou possuída. Apenas podem ser vividas, experienciadas, sentidas. E tudo isso acontece num único tempo – AGORA. E, no agora, não existe posse, pois a posse necessita do tempo, não é? Ora pensa lá um pouco sobre isso: sem tempo, não há posse. Só aquilo que é. E aquilo que é não é de ninguém.

Quando alguém percebe o equívoco, liberta-se. Repara que não passa a ter liberdade (isso seria viver novamente o equívoco), passa a ser livre. Livre do sofrimento da busca e da defesa da posse. Livre para sentir a vida tal como ela é. Livre para , de braços abertos esta suprema verdade: com nada nascemos e com nada morremos.

Quer isto dizer que, entre esses dois momentos, nada podemos ter? Bem, nesta aventura humana experienciarás, sem dúvida, a posse aparente de coisas, recursos, relações e conhecimentos. Vive-os sem te apegares e poderás usufruir da posse ilusória sem sofrimento! Um paradoxo? Sem dúvida. Mais um, diria eu. Ou não fosse esta nossa dimensão humana a mais paradoxal das experiências. Talvez por isso seja tão bom vivê-la.

8 Comments

  • Fernando Esteves diz:

    Boa malha !
    Gramei !
    Pronto !

  • Parabéns Pedro! Essa consciência é fundamental! :)))

  • Maria Lima diz:

    De facto isso é verdade para tudo o que sejam posses materiais. Mas felizmente que levamos sempre, de cada vida, o conhecimento que alcançámos pelas inúmeras experiências vividas, a (ainda muito pouca) sabedoria que conseguimos vislumbrar nas ilações que fomos capazes de tirar de anos de existência e de interação com os outros e, enfim, aquilo que acredito seja a nossa muita ou pouca evolução, o crescimento que nos permitimos atingir no decurso da nossa jornada. Os bens materiais cá ficam. Mas a riqueza da alma acompanha-nos, ou não fôssemos seres espirituais.

  • Franchart diz:

    Pois………..

  • É preciso, realmente, essa consciência para conquistar a paz, a liberdade, o desprendimento do ego e da ilusão-maya.

  • Celine Mestre diz:

    Adoro esta “filosofia” de vida. Sabe bem reconhecer a minha em muito do que aqui leio. É como se consolidasse muito do que já pensei e esclarecesse algumas dúvidas que tinha. E ainda tanto para aprender…

    No âmbito deste post, partilho um poema que escrevi:

    “Desapego material…

    Sem nada viemos,
    Com nada nos vamos.
    O desapego material,
    É simplesmente o que condiz,
    Com a forma humana natural.

    Procurar o suficiente porém,
    Tudo o que nos faz sentir bem,
    Apreciar a ventura concedida,
    É o substancial desta vida.

    Olhar o outro à nossa imagem,
    Ser humilde nesta viagem,
    O requinte está no saber,
    Alcançar a simplicidade de ser.

    Ter, pode referenciar poder,
    Mas nesse universo ilusório,
    Contribuir para um mundo melhor,
    É o que é realmente notório,
    E de merecido valor.

    Desapego material:
    Uma busca espiritual,
    Que dita que afinal,
    É a nossa essência que vale!

    (Celine Mestre, Outubro de 2014)”

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