Aquilo a que resistes, persiste!

By 2 Julho, 2016Palestras, Reflexão

“Aquilo a que resistes, persiste” – afirmou o psiquiatra suíço Carl Jung. Como um dos grandes vultos da aventura de compreensão da mente humana do século XX, Jung lá deveria saber do que falava. Convido-te a refletir sobre a natureza e as implicações desta afirmação. Talvez descubras, como eu, que nela reside um dos mais bem guardados segredos desta nossa experiência humana!

Vamos por partes, começando pela ideia de resistência. Afinal, o que é resistir? No contexto da mente, resistir é o contrário de aceitar. Resistir é não aceitar que alguma coisa que está a acontecer esteja realmente a acontecer. Alguns exemplos de afirmações “resistentes”:

 

“Não acredito que ele me tratou desta forma”

“Não aceito que me tenham diminuído o salário”

“Recuso-me a aceitar que ela ache que a culpa é minha”

“Não dá para acreditar no que as pessoas fazem hoje em dia”

“É inaceitável que eles tenham ganho”

 

Quando resistimos, estamos basicamente a procurar negar aquilo que já é ou que já foi. Ora deixa-me repetir…. Estamos basicamente a procurar negar aquilo que já é ou que já foi! Usemos a lógica: posso negar aquilo que já é? Não, caso contrário não era! Então, se procuro negar aquilo que é inegável, o que ganho com isso? Apenas e só um desperdício de recursos! Quando deixo de negar, pelo contrário, posso confrontar as coisas tal como são (ou tal como acho que são) e isso permite-me aceder novamente aos meus recursos para lidar com a situação. Enquanto resisto, não lido com a situação tal como ela é pois recuso-me a aceitar que ela seja como é! Uma loucura, não é?

Na minha prática como coach, já conheci pessoas que resistiam há anos ou até há décadas a certas e determinadas “realidades”. Repara que, ao resistirem ao que é, acabam por reafirmar e reforçar aquilo que é. Pois enquanto se oferece resistência mental, não se contribui para a alteração dessa “realidade”. É nesse sentido que Jung afirmou que aquilo a que resistimos persiste!

O primeiro passo para poder alterar uma coisa que já é (uma relação, um resultado, um evento, uma situação) é aceitá-la tal como é. E fazer isto é valorizar a informação tal como nos chega através dos nossos sentidos. Algumas perguntas que podem ajudar neste processo:

 

“O que está acontecer”?

“O que consigo observar”?

“O que vejo, ouço e sinto neste contexto”?

 

É com base nesta informação sensorial, este conjunto de percepções, que podemos começar por praticar a aceitação. Depois podes fazer algumas questões orientadas para o futuro, como:

 

“O que quero que aconteça em vez disto”?

“Qual é a minha intenção”?

“O que quero em alternativa”?

 

Desta forma, em vez da resistência, utilizas a aceitação e crias a possibilidade de mudança, se implementares ações para te aproximares do que queres!

Alguns exemplos práticos:

 

-“Não acredito que ele me tratou desta forma”

-“Como é que ele te tratou, especificamente”?

-“Bem, ele nem me respondeu aos emails que lhe enviei, mesmo depois de eu lhe ter dito que era muito importante. Recuso-me a aceitar que me trate assim”!

-“E como gostarias que te tratasse”?

-“Bem, que me respondesse aos emails num tempo útil”!

-“Ele está a fazê-lo”?

-“Não, não está”!

-“Ok, então o que quer que estejas a fazer não está a gerar o resultado que queres. O que podes fazer de diferente para que isso possa acontecer, sendo que neste momento ele não te está a responder e queres que o faça”?

-“Bem, talvez possa enviar-lhe um sms, ou ligar-lhe, ou marcar uma reunião para arranjar uma forma de não depender da resposta dele aos meus emails”.

 

-“É inaceitável que eles tenham ganho”!

-“Eles ganharam”?

-“Sim”.

-“O que ganhas em não aceitar que tenham ganho”?

-“É que só ganharam com a ajuda do árbitro”!

-“Foi isso que observaste”?

-“Sim, foi o que observei! Quer dizer, observei que o árbitro não marcou um penálti a nosso favor”!

-“Sabendo que o árbitro não marcou o penálti e sabendo também que eles ganharam o jogo, o que podes fazer agora de positivo com essa informação”?

-“Bem, na realidade muito pouco. Posso preparar-me melhor para o próximo jogo, talvez”!

-“O que acontece quando aceitas que perdestes, o que já não podes mudar, e colocas a tua atenção no próximo jogo? Como te sentes”?

-“Sinto um pouco mais de poder e de controlo. Sinto mais esperança e entusiasmo”.

 

Aquilo a que resistes, persiste, disse Carl Jung. A questão fundamental parece ser se queres que persista aquilo a que estás a resistir. A maior parte das vezes a resposta parece ser “não”! Então, aceita aquilo a que resistes. Abandona o esforço inglório da resistência, Aceita que está a acontecer, por muito injusto ou desadequado que pareça. Repara que aceitar não é o mesmo de concordar ou reforçar! Aceitar é simplesmente olhar para as coisas como elas são. Pois só aí podes começar a alterá-las, usando os teus poderosos recursos!

Já lidei com pessoas que resistiam há anos aquilo que não queriam, recusando-se a aceitar que estava a acontecer, o que nada mudava! Quando aceitaram a sua realidade, a enfrentaram, a olharam olhos nos olhos, puderam começar a fazer diferente para gerar resultados diferentes. Deixaram, como Jung predisse, de alimentar a persistência daquilo a que resistiam. Passaram, em vez disso, a transformar aquilo de que não gostavam, descobrindo o imenso poder que tinham à sua disposição. Muitas vezes foi duro, muitas vezes foi frustrante, muitas vezes foi cansativo. No final, porém, foi muito melhor do que continuar a alimentar aquilo que não queriam!

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