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A quem te queixas quando te queixas da tua vida?

Sabes aqueles momentos em que, sozinho com os teus pensamentos, te queixas da tua vida, te sentes vitima de algo ou de alguém,  sentes o peso da injustiça ou do azar? Quando isso acontece, estás-te a queixar exatamente a quem? Repara que este tipo de pensamento não é nada invulgar. De acordo com a minha experiência, a esmagadora maioria das pessoas tem momentos destes – para alguns serão meramente episódicos, para outros serão recorrentes. Também os tenho, claro!

Acho interessante propor-te uma reflexão sobre o que acontece antes, durante e depois destes momentos de queixa universal, do género:

“Não mereço que isto me aconteça outra vez”

“Não me devia ter acontecido a mim, que tenho tido tanto cuidado com isto”

“Podia ter corrido de outra forma, mas claro que foi correr mal e agora quem tem que resolver, como sempre, sou eu”

“A minha vida é tão difícil comparada com a de alguns que conheço, que injustiça tão grande”

“A vida não me trata como me devia tratar, parece que estão todos contra mim”

De onde vêm estes pensamentos? Fundamentalmente do facto de ter começado a avaliar as minhas circunstâncias e resultados em função de uma pretensa escala de “justiça” ou “merecimento”. Ela existe mesmo? Quem é que não está a ser justo comigo? A quem me queixo? Quando faço estas perguntas a alguém que está dominado pelos tais pensamentos, a reação é muitas vezes de surpresa – as pessoas não sabem a quem se estão a queixar. Algumas dizem-me que se queixam a Deus, outras a si próprias, outras dizem que é um simples desabafo.

Como nos sentimos enquanto manifestamos estas avaliações de injustiça? Pequenos e sem controlo. Simples observadores de mecanismos poderosos – a vida – que não nos dão o tratamento que merecemos. E a sensação de falta de controlo vem, regularmente, acompanhada do sentimento de infelicidade.

E o que fazemos depois com estes sentimentos? Muitas vezes descarregamos sobre os outros (sendo agressivos, lutando sem razão aparente, tendo disparos emocionais) ou sobre nós próprios (iniciando comportamentos obsessivos com a comida, a bebida, sexo, jogo, TV, etc). Tentativas – todas elas – de ganhar controlo! Claro que as estratégias são fracas – e frequentemente contraproducentes, pois pioram os nossso resultados, gerando novas sequências de pensamentos sobre “injustiça”!

O que fazer? O melhor é lidar diretamente com a raiz, não é?

Que crenças são estas sobre a forma como a vida deveria ser? De onde vêm?

E o que aconteceria se me libertasse delas – as expectativas sobre a vida – e me ligasse à vida como ela é?

O que aconteceria se eu deixasse de lutar com as coisas que já são e simplesmente as aceitasse como estando cá – observando e, quando interessante – atuando sobre elas para as alterar?

Sabes, o que aconteceria é que um novo mundo emocional se abriria perante ti! É que quando deixas de julgar a vida – sobretudo a tua – começas a ter espaço mental para usufruir da vida como é, a sentires a experiência única que é seres tu, a beneficiares daquilo que os teus sentidos te mostram, a criar uma ligação profunda de compaixão contigo e com o mundo! Como sei? Bem, aconteceu comigo e acontece todos os dias com muitas pessoas que acompanho. É uma mudança subtil – acontece inicialmente apenas no mundo interno – e que precede uma série de acontecimentos mágicos na vida de cada um.

É que depois de aceitarmos a vida, descobrimos que podemos viver felizes com ela para sempre. Parece demasiado poético?

Pergunta a quem já trilhou o caminho da aceitação, repara na paz e tranquilidade com que lidam com o que é, repara na forma como aceitam as suas limitações e talentos, repara no amor com que falam da vida e da morte, repara e deixa-te inspirar. És a seguir, amigo!